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Carne ameaça "reinado" da soja nas exportações brasileiras
Comércio exterior
Carne ameaça "reinado" da soja nas exportações brasileiras
Sexta, 22 de Julho de 2005, 11h55
Fonte: Reuters

As exportações brasileiras do grupo carnes continuaram crescendo em ritmo acelerado no primeiro semestre deste ano, a exemplo do que já ocorreu em 2004, e já ameaçam a supremacia da soja entre as principais commodities do país.

A receita com as vendas externas de carnes no primeiro semestre deste ano cresceu 31,5% ante igual período do ano passado, somando US$ 3,3 bilhões. Em 2004, o setor já havia crescido 50,4% em valor e alcançado a marca de US$ 6,14 bilhões em exportações.

Do lado da soja, a queda dos preços internacionais e a limitação do aumento da produção devido à última estiagem fez com que a receita no primeiro semestre encolhesse 20%, para US$ 4,36 bilhões.

O consultor do Banco Fator Gordon Butland, especialista na indústria global de carnes, estima que as vendas de carnes em 2005 fechem o ano com receita próxima de US$ 7 bilhões.

Se confirmado, o resultado deixará o segmento bastante próximo do valor do complexo soja, que a Abiove, entidade que reúne processadores de oleaginosas, estima que fique ao final de 2005 em cerca de US$ 8 bilhões, ante US$ 10 bilhões em 2004.

"A receita das carnes não vai passar a de soja neste ano, mas em breve é possível que ultrapasse", disse Butland.

O presidente da Abipecs, entidade que reúne os exportadores de carne suína, Pedro Camargo Neto, não tem dúvidas de que o grupo carnes se tornará o principal item da pauta de exportações de commodities do Brasil.

"A carne tem valor agregado muito maior que o grão e o Brasil reúne as condições para ser um grande produtor", disse ele, que foi ex-secretário de Política Agrícola do governo brasileiro e mentor dos processos na OMC nos casos do açúcar e do algodão.

"O país tem grande vantagem comparativa. É um país disperso, grande, que não tem inverno em boa parte do território, além da ampla oferta de matéria-prima para ração".

Segundo ele, o que o país ainda tem que melhorar é a questão sanitária, com mais investimento para acabar de uma vez com doenças como febre aftosa, para se adequar a todas as exigências de países importadores e impedir que enfermidades como a gripe aviária e o mal da vaca louca cheguem ao país.

Na trilha da vaca louca

Curiosamente, foi também a questão sanitária que deu o impulso final para as carnes brasileiras. A vaca louca praticamente tirou os Estados Unidos do mercado internacional de carne bovina, que já lideraram.

A gripe aviária devastou a indústria avícola da Ásia e excluiu do mercado de frango "in natura" países como a Tailândia, que era o 4o. maior exportador mundial até registrar a doença. Os Estados Unidos, que também tiveram focos de gripe, perderam a liderança nas exportações de frango para o Brasil.

"Vaca louca e gripe aviária ajudaram bastante. Mas o país já vinha crescendo e deve continuar avançando", disse Butler.

Segundo dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), em 2004 o Brasil conquistou o primeiro lugar nas exportações de frango, passando os EUA e embarcando 2,47 milhões de toneladas. E também assumiu a liderança mundial nas vendas de carne bovina, passando a Austrália e embarcando 1,15 milhão de toneladas.

Especialistas acreditam que as vendas de frangos estão perto da consolidação e que o maior potencial de crescimento agora fica para carne bovina e suína.

"A carne bovina brasileira hoje tem qualidade e preço. Apesar de ainda estar fora de 60% do mercado mundial, devido à febre aftosa, já domina 26% do total", afirmou o coordenador do Fórum Nacional Permanente de Pecuária de Corte da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), Antenor de Amorim Nogueira.

O governo brasileiro negocia com grandes mercados, como o dos EUA e do Japão, para poder vender carne de boi, mas os processos de liberação são complexos e duram anos.

Produtores e exportadores de carne suína estão atentos para o potencial do setor externo. Contrataram Camargo Neto para presidir a entidade que reúne o setor, com a meta principal de elevar o número de mercados atendidos pelo Brasil lá fora.

Em 2000, o Brasil tinha 5% do mercado mundial para suínos, participação que pulou para 14% em 2004, fazendo dele o 4º maior exportador, atrás da União Européia, EUA e Canadá, segundo o USDA.

"A produção tem crescido com o maior investimento e o país está financiando atividades destinadas a elevar o número de mercados externos para sua carne suína", informou o USDA em seu mais recente relatório sobre o mercado de carnes mundial.

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